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A outra revolução

Luis Fernando Verissimo

Um artigo que li na revista The Nation sobre dois livros recém-lançados tinha um título apropriado: A outra revolução de 1905. Uma revolução de 1905 foi a russa - a fracassada, já que a que pegaria mesmo seria em 1917. A outra foi a de Albert Einstein, cujas teorias sublevaram a física newtoniana. Um dos livros comentados no artigo é especificamente sobre Einstein e 1905, o "annus mirabilis" em que ele publicou os cinco tratados seminais, inclusive o da teoria especial da relatividade, que mudariam o pensamento humano. O outro é sobre a correspondência, de 1916 a 1955, entre Einstein e Max Born, o físico alemão como ele que em 1954 ganharia o Prêmio Nobel por ter estabelecido a base matemática da teoria quântica. Einstein e Born só de encontraram uma vez, mas sua correspondência até a morte de Einstein era de bons amigos, apesar de constantes desentendimentos - quase todos em torno da teoria quântica, que Einstein nunca aceitou. É numa resposta a Born que Einstein faz sua famosa afirmação de que Deus não joga dados com o Universo.


Nas cartas, segundo o articulista, sobressai o humanismo e o senso estético de Einstein. Há inclusive, no artigo, a sugestão de que era o senso estético, mais do que convicções científicas, que o impedia de aceitar o Universo segundo a mecânica quântica. Assim como a insatisfação com a discrepância ilógica entre o comportamento da energia e da matéria na física convencional o levara à teoria revolucionária sobre a transmissão da luz, em 1905, Einstein também via uma desarrumação - um inaceitável mau gosto - nas conclusões, ou nas incertezas, da teoria a que Born tentava lhe converter. Se a teoria quântica estivesse certa, escreveu ele para o amigo, "eu preferiria ser um sapateiro, ou até um empregado numa casa do jogo, do que um físico". Anos antes ele escrevera que gostaria de ser um encanador ou um mascate em vez de cientista. E no último parágrafo da sua última carta a Max Born, pouco antes de morrer, 50 anos depois de 1905, Einstein escreveu: "Nas atuais circunstâncias, a única profissão que eu escolheria seria uma em que ganhar a vida não tivesse nada a ver com a busca do saber."


Uma questão que vale para as duas revoluções de 1905, a de Einstein e o "trailer" da revolução bolchevique de 1917, é aquela velha sobre a importância relativa de indivíduos e das circunstâncias na História. São indivíduos que fazem o momento histórico ou o momento histórico que sempre encontra seus agentes, pois a revolução tem que acontecer de qualquer maneira? Quais seriam as consequências para a física e para o mundo se Einstein tivesse continuado a ser apenas um funcionário menor numa repartição pública, sem se meter com a física newtoniana - ou se tivesse seguido a sua vontade de ser encanador ou mascate, e desistir de saber? Muitas das ideias que ele pôs no papel estavam "no ar" entre físicos do começo do século, segundo o artigo. O gênio de Einstein no caso foi o de destilar o que havia no ar e fazer as deduções certas. Mas outras ideias suas foram puras sacadas, mais intuição do que dedução, tanto que algumas só foram provadas há pouco tempo. Sem Einstein elas não existiriam. Se Einstein fosse sapateiro, a história do mundo teria sido outra.

Provavelmente a dos sapatos também.


Quando Einstein começou a se corresponder com Born, em 1916, seu trabalho mais importante já estava feito. Ele era uma celebridade, mas seus últimos quarenta anos foram vividos à margem de outra revolução, a da física quântica. Ele se dedicou à busca de uma teoria unificada do Universo. Não apenas a explicação de tudo: uma explicação esteticamente irretocável. Não a encontrou, mas sua busca, que durante certo período foi um símbolo do seu isolamento, hoje é uma obsessão generalizada entre os físicos. Numa carta para Born em 1944, Einstein escreveu: "Não tenho dúvida de que chegará o dia em que veremos de quem era o instinto certo".


POEMINHA QUÂNTICO

(Da série "Poesia numa hora destas?!")

Partículas subatômicas
se comportam de um jeito
quando são observadas
e de outro quando estão sós.
Como, aliás,
todos nós.


Domingo, 19 de junho de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.